Jornal de Canela

ANO XXII - EDIÇÃO Nº 1192
Hoje: 06/01/2009

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

A INQUIETUDE E O DESCONFORTO DO HOMEM OCIDENTAL
Enquanto o homem contemporâneo olhar para si e para os outros como meras criaturas desprovidas do “algo mais”, ele sempre irá estar envolto numa nuvem escura que o priva da luz, que é DEUS, e jamais se encontrará com o seu “EU”, que é o mundo da interioridade e da consciência. Ora, o ser humano, tendo a capacidade de dobrar-se sobre si próprio, sente que precisa organizar a sua vida pessoal e comunitária, para que desta forma haja um mínimo de segurança, paz interior, e exterior e poder conscientemente desfrutar das coisas boas da vida. Portanto, isto significa que a moral – que são as regras concretas que dão suporte à vida social – se faz necessária e, esta, só é possível, num “sujeito pessoal” capaz de pensar em categorias absolutas, de distinguir o bem do mal, numa palavra: dotado de uma consciência” (cf.João Paulo II – “Não tenham medo” – autor: André Frossard p.125).
Caro leitor! Parece não ficar dúvida de que “(...) esta riqueza própria do ser humano evidencia-lhe a transcendência como dimensão constitutiva de sua existência” (cf.ibidem p.126). O homem, portanto, pode-se afirmar que é chamado a ultrapassar a si mesmo, ou seja, ir além dos seus limites. Quando o homem primitivo na arte rupestre toma um instrumento para desenhar animais e objetos de sua vivência, ele seria incapaz de expressar tais realidades se ele não pudesse sair de si mesmo para ser este objeto que esta desenhando no espaço da escultura que ele reproduz nas cavernas.
A FUGA DE SI MESMO E A PERDA DE SENTIDO DE VIDA.
Na minha experiência de 31 anos de sacerdote, como conselheiro, confessor, professor Universitário onde lecionei Ética, Bioética nos diversos cursos, tenho me defrontado com realidades singulares, no que tange à vida das pessoas. Tenho me dedicado horas para escutar, aconselhar, animar e abrir os olhos das pessoas que procuravam no auge do desespero uma saída. Esta função que exerço com dedicação me obriga a muita leitura nas diversas áreas do conhecimento. Dentro deste contexto cito um livro me foi útil. “Psicologia do profundo e vocação – as instituições do autor: M. Rulla SJ. Ele afirma: “A cultura contemporânea é indubitavelmente inclinada ao secularismo, porém, este leva à ignorância da religião, ao ateísmo e mutila, distorce o conhecimento humano. Este último é resultado da colaboração de muitos povos ao longo dos milênios e esta colaboração pressupõe e exige uma crença. Ora, o movimento secularista do Iluminismo nos séculos XVIII e XIX não só atacou a tradição religiosa, mas todas as tradições e, assim, destruiu a indispensável contribuição que a crença proporciona ao conhecimento humano. Hoje muitos educadores seguem este modelo secularista: “Os estudantes são encorajados a descobrir as coisas por si mesmos, a desenvolver a originalidade, a ser criativos, a criticar, mas não parecem que sejam instruídos na importância que o papel de crer tem na aquisição e ampliação do conhecimento. Muitos não parecem conscientes de que o que eles conhecem da ciência não é gerado de modo imanente mas, em grande parte, é simplesmente crença” (cf.Rulla p.70 ) Caro leitor! O que Rulla nos coloca neste texto extraído de seu livro acima citado, mostra com clareza o drama do homem contemporâneo, de modo especial, o Ocidental. A própria ciência não parte do fenômeno como tal e sim da metafísica. Por quê? Simplesmente porque a âncora da ciência parte da metafísica que é a hipótese, para só posteriormente comprovar ou não a veracidade daquilo que colocou no ponto de partida. Ora, esta abstração exige sair de si, ou seja, ir além do aqui e do agora. Esta postura mostra a estrutura humana centrada num tripé: o cognitivo, o biológico e o espiritual. Sem levarmos em conta este tripé não há como encontrar uma saída para a complexidade da vida humana. Só resta o absurdo existencial. Nos atendimentos diários me defronto com pessoas completamente desestruturadas e no limite. Muitos deles provenientes de profissionais da saúde, que os trataram apenas como um fenômeno e esqueceram que o ser humano não é uma máquina, mas uma “PESSOA”.
O HOMEM É UMA “PAIXÃO INÚTIL”?
Esta afirmação é do filósofo francês Jean Paul Sartre. Esta filosofia de Sartre, levou muitos jovens na França e outros países ao suicídio. Tive uma aluna na Universidade no curso de filosofia. Esta, se debruçou de cabeça nas obras de Jean Paul Sartre. Lembro que quando me procurou estava no abismo do desespero. Precisava de ajuda, pois sentia na pele a náusea da vida e um caminho sem saída..
Por que chegou a tal extremo? Exatamente porque ela fechou a única brecha que lhe abriria para a transcendência. Frossard diz: “(...) o ser humano entra na depressão nervosa, drama do ser fechado em si mesmo, e apavorado pela vertigem do seu nada original” (cf.ibidem p.126). Caro leitor! Inútil é o forçar do homem em não admitir que ele tendo consciência do seu “EU” querer viver indiferente diante daquele que o criou para ser feliz. A própria liberdade que Deus nos dá de renegarmos o próprio Criador é um ato contraditório. O próprio Sartre afirma: “(...) somos condenados a ser livres”. Ora, ser livre é abrir-se sempre mais para o sentido que é Deus. A auto-suficiência de querer construir a história sem o autor da vida é a escolha para a autodestruição e estas pessoas nunca são livres e muito menos felizes.
Cristo é: (...) Caminho, Verdade e Vida (cf. Jô 14,6). A Verdade que nos liberta é Cristo e nos revela o amor de DEUS. A auto-suficiência em relação ao Criador, é como abrir um vinho azedo que não é da cantina de Cristo.
Pe. Ari Antônio da Silva - Doutor em Filosofia – Vigário da Paróquia de Canela - RS
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