Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1240
Hoje: 03/12/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

A ENCÍCLICA “Spe Salvi” de Bento XVI – UMA LUZ PARA O MUNDO CONTEMPORÂNEO
Caro leitor! A partir desse número, iniciaremos a reflexão sobre a Encíclica do Papa Bento XVI: a “ESPERANÇA”. Optei por comentar capítulo por capítulo, para que o leitor dessa coluna tome conhecimento da profundidade e atualidade do tema. Já, em outros artigos, refletimos a situação confusa em que vivemos hoje. A ciência teve um ligeiro e espantoso avanço, nos últimos anos. Contudo, com a mesma rapidez, entusiasmo e o conforto que desfrutamos, a partir da tecnologia, parecem que na mesma proporção o homem e a mulher, de hoje, navegam em alto mar, sem saber que caminho seguir. A característica marcante de nosso mundo se expressa nas doenças, muitas estranhas: a depressão, a ansiedade, a melancolia de muitos, o desânimo, o cansaço e a busca de “refúgios”, longe do barulho. É sintomático: quando alguém consegue alguma economia, logo pensa em adquirir um sítio. Esse não é só para passar algumas horas, mas para ser uma morada fixa. Na verdade, é à busca de si mesmo, ou seja, o encontro com o seu “eu”. Por outro lado, o homem e a mulher, contemporâneos, precisam tomar consciência de que não basta buscar viver em sintonia com a natureza exterior, pois o problema ainda há de persistir, afinal, a pessoa leva consigo o vazio existencial encontrado dentro de cada um. Portanto, urge revermos o conceito antropológico, ou seja, o que é o ser humano. É a partir de uma antropologia que contempla o “todo”: o aspecto cognitivo, biológico e espiritual, que equilibramos o ser humano. Abortar um desses elementos, na formação do ser humano, tira o foco nítido e ofusca a visão, pois atinge, de forma direta, a essência humana.
O DECLÍNIO DAS GRANDES IDEOLOGIAS E SISTEMAS
Com o avanço da tecnologia, o homem e a mulher cresceram na auto-estima, a ponto de chegarem à auto-suficiência. Ora, Deus deu a inteligência, à vontade e a liberdade ao homem e a mulher, aliás, é nisso que somos criados à “imagem e semelhança de Deus” (cf. Gn.1,26-28). Porém, foi aí, também, que o ser humano fraquejou, perdendo a “Graça”. Ao revermos, de forma retrospectiva, a história da humanidade, bem como a construção, ao longo dos anos, dos grandes sistemas filosóficos, políticos e outros, percebemos que a inteligência e a liberdade, assim como foram e são fator de grandeza e distinção entre as demais criaturas, de modo idêntico,  tornaram-se os pontos fracos do homem e da mulher. É aí que se compreende a teologia do “Mistério da Encarnação”, pois, apesar das “gafes” do ser humano, Deus mostrou ter encanto pelo homem e a mulher criados à “imagem e semelhança da Trindade Santa”. Que pena! Mas também, como diz a liturgia do sábado de aleluia: “Ó feliz culpa, que fez merecer um tão grande amor de Deus para nós”. As grandes ideologias e os grandes sistemas filosóficos, os quais tentaram responder aos anseios do homem e da mulher, prescindindo do Criador, que ironia! Todos fracassaram. Quantas vidas foram ceifadas em nome de ideologias e de sistemas políticos! Tudo em vão. O ser humano continua a se questionar: Quem sou eu? Donde vim? Para onde vou? Por que hoje sou e amanhã não sou?
SÍNTESE E COMENTÁRIO DA ENCÍCLICA “SPE SALVI” DE BENTO XVI
I Capítulo
Caro leitor! A Encíclica “Spe Salvi” inicia fazendo “jus” do título dado. “(...) É na esperança que fomos salvos” (cf.Rm 8,24). Essa nos apresenta a redenção, dentro da visão cristã, não apenas como um fato, mas sim, como uma esperança digna de confiança absoluta. Baseados nesta esperança é que, sem medo, podemos enfrentar as agruras e problemas do nosso tempo, marcado por conflitos e contrariedades de toda espécie. O cansaço do caminhar de hoje vale a pena, quando sabemos o fato de estarmos neste mundo. Por isso, Bento XVI nos convida a olharmos a Palavra de Deus, cuja palavra “esperança” é algo central da fé bíblica. É possível perceber, na Bíblia, o intercâmbio entre os termos “fé” e “esperança”. Paulo, quando escreve aos Efésios, lembra: “(...) antes do seu encontro com Cristo, estavam ‘sem esperança e sem Deus no mundo” (cf.Ef.2,12). Ele alude que os povos tinham os seus deuses, sim, aliás esse é um sinal explícito da marca do Criador na estrutura humana. Contudo, Paulo diz: “(...) seus deuses revelaram-se discutíveis e dos seus mitos contraditórios não emanavam qualquer esperança. Apesar de terem seus deuses estavam sem Deus e consequentemente achavam-se num mundo tenebroso perante um futuro escuro. Não deveis entristecer-vos como os outros que não têm esperança” (cf.1Ts.4,13). Os cristãos têm como elemento distintivo o fato de esses terem um futuro e uma vida que não termina num vazio. O cristianismo não é apenas uma Boa-Nova mas uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Bento XVI usando uma linguagem de nossa cultura contemporânea, afirma: “(...) A mensagem cristã não é só “informativa”, mas “performativa”. Significa que esta comunicação gera fatos e muda a vida das pessoas. Quem tem esperança, vive diversamente, pois tem uma vida nova. Em que consiste a esperança, que enquanto a esperança, é  Redenção? A resposta vem de Efésios: “Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus, isso significa receber esperança”. É do encontro real com este Deus, que estamos de posse da esperança”. Caro leitor! No pluralismo de crendices  esoterismos e estranhas filosofias, que não respondem a nada com solidez, essa Encíclica, nos traz a verdadeira luz que é Cristo, como a expressão do Pai que se deu a conhecer ao mundo. Tecnologicamente avançamos, mas embriagados e entretidos pelas maravilhas da ciência, perdemos o rumo da história e do sentido que é Deus.
Pense e reflita!
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
Pe. Ari Antônio da Silva
Doutor em Filosofia e Vigário da Paróquia de Canela - RS

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