Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1241
Hoje: 03/12/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

A ENCÍCLICA “SPE SALVI” DE BENTO XVI.
O conceito de esperança baseada sobre a fé no NT e na Igreja Primitiva.


Caro leitor! Neste número, tomaremos o II capítulo da Encíclica papal: “A ESPERANÇA”. No preâmbulo deste capítulo, Bento XVI retoma os conceitos “informativo” e “performativo”.
Neles, frisa a importância do “performativo”, como o assimilar de um conteúdo, não apenas de forma jornalística e, muitas vezes, superficial, mas como algo que “transforma” a conduta da pessoa. É interessante observar que em relação a esses conceitos o pensador Robert Kurz, chama atenção de um problema próprio do nosso tempo, ou seja, temos muitas “informações”. A avalanche produzida pelos diversos meios de comunicação nos bombardeia, impiedosamente. São informações e mais informações, sem dar espaço para o “conhecer”, analisar e filtrar a qualidade das mesmas. Ora, isso nos induz à superficialidade. Essa realidade se reflete no nosso sistema educacional, quando é palpável a fragilidade do ensino atual, cujos estudantes chegam à Universidade “semi-analfabetos”, para o espanto dos críticos do processo educacional do nosso país. Portanto, “informação” não se confunde com “conhecer”, pois esse exige método e senso de análise, com fundamentação de muitas ordens. O mesmo problema acontece em relação à “fé” e à “teologia”. É preciso “conhecer” e tentar “compreender”, para que se traduza e se transforme em conduta prática. Vejamos o que nos afirma Santo Agostinho: “Crer para compreender e compreender para crer”.
UM OLHAR PARA OS TEMPOS DA IGREJA PRIMITIVA
Caro leitor! Bento XVI nos faz ver que o “performativo” transforma a nossa vida, ao ponto de nos sentirmos redimidos através da esperança. Por outro lado, ele nos mostra, com clareza e firmeza, que “o cristianismo não é uma mensagem ‘sócio – revolucionária”, até porque, como já escrevi em outros artigos, quando buscamos respostas definitivas, na imanência histórica, sempre fracassamos. Que a história nos diga!
Este equívoco ainda persiste em muitos bispos, sacerdotes, religiosos(as) e agentes de pastoral. Por quê? Essa visão é a fronteira entre a ideologia, que sempre é uma concepção de mundo e que polariza a atenção num determinado núcleo central e cujo risco é o desvio da verdadeira identidade e missão de Jesus. Portanto, engana-se quem colocar Jesus como um guerreiro em luta por uma libertação de natureza política e sociológica. Textualmente, Bento XVI afirma na Encíclica: “(...) Jesus tinha trazido algo totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança e, por isso mesmo transformava a partir de dentro da vida e o mundo”.
Paulo na carta à Filêmon 10-16, aborda a questão das relações interpessoais, no campo civil, onde o tratamento é de patrões e escravos, mas diz ele: “Em virtude do batismo, regenerados pelo Espírito, são membros da única Igreja e passam a ser irmãos e irmãs e recebem conjuntamente um ao lado do outro o Corpo do Senhor”. Diríamos, em outras palavras, assim: Temos funções e responsabilidades diferentes, mas isso não é motivo de discriminações, até porque todo o trabalho honesto, por mais simples que seja, edifica e tem seu valor no conjunto da sociedade, para que na sua conjuntura, haja harmonia estrutural.
A SOCIOLOGIA DA IGREJA PRIMITIVA
Caro leitor! Estamos inseridos numa sociedade concreta e não podemos fugir dela. Cabe, sim, humanizá-la, tarefa própria dos cristãos. Contudo, a transformação da mesma, deve partir de dentro das pessoas para atingir as estruturas “carcomidas” dessa sociedade decadente, assim como os primeiros cristãos fizeram na sociedade opressora românica. A Carta aos Hebreus 11, 13 diz: “os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura”. Ora, isso não quer dizer que não nos interessamos pela sociedade de hoje, nos alienando. Pelo contrário, é missão e dever de cada batizado exercer a missionariedade como fermento na massa, sem apelarmos para métodos que geram violência, mas pela transformação do coração das pessoas. A razão de tal conduta é o fato de que, como cristãos, “(...) pertencemos a uma sociedade nova, rumo à qual, caminhamos e que, na nossa peregrinação, é antecipada”. Caro leitor! Assim se explica por que os cristãos devem participar ativamente da construção de um mundo que é egoísta e explorador, numa terra habitável, onde, podemos, antecipadamente, sentir o sabor de vivermos como irmãos.
Entretanto, não nos iludamos, pois o mal sempre estará conosco. Não queiramos reprimi-lo e erradicá-lo, mas precisamos, sim, aprender a administrá-lo e conviver neste paradoxo próprio do tempo e do espaço até a pátria definitiva, onde todo o mal será extirpado.
Caro leitor! Pense e reflita!
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
Pe. Ari Antônio da Silva
Doutor em Filosofia e Vigário da Paróquia de Canela – RS

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