Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1242
Hoje: 03/12/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

A MARCA DA IMORTALIDADE NO CORAÇÃO O HUMANO.
Síntese e Comentário da Encíclica “Spe Salvi”, de Bento XVI O homem e a mulher contemporâneos oscilam num paradoxo ambíguo: Por um lado, eles têm o desejo de viver com jovialidade e, para tanto, buscam, desesperadamente, fórmulas mágicas para serem jovens eternamente. Por outro, na prática do dia-a-dia, colocam o absoluto na própria ciência, como sendo a “toda poderosa”. Esse procedimento é a recusa de “ser águia”, para continuar a “ser galinha”, que contradiz o impulso interior para a imortalidade, já que a premissa posta se reduz à imanência histórica. Assim, frustramos e matamos o “germe” da eternidade, que está impregnada na essência humana, preferindo construir o paraíso aqui neste mundo, e nele, colocando o absoluto. O ser humano, ao longo da história, fez várias tentativas de fugir do criador, criando o seu próprio mundo. O resultado sempre foi desastroso.
A ESPERANÇA, NA VISÃO DE GABRIEL MARCEL.
O filósofo existencialista, Gabriel Marcel, um protagonista do existencialismo cristão, nos coloca alguns elementos, anexando valores da modernidade, mas tendo, sempre, como pano de fundo a “fé”, que se traduz na “esperança”. Vejamos: ele distingue o absoluto “eu espero” do “eu espero que”. O primeiro sempre indica que esperamos por luz e liberdade, não enquanto objetos exteriores, mas o tornar-se clarividente nossa existência e libertar nosso íntimo. Marcel opõe a esperança ao otimismo. O otimismo está, sinceramente, convicto de que as coisas “se ajeitarão”. O otimista vê tudo com uma atitude bem determinada, ao passo que o esperançoso está envolto num processo de vir-a-ser. De acordo com Gabriel Marcel, “ter esperança”, não significa aferrar-se a alguma coisa concreta, mas antes, superar minhas concepções de vida. Quem supera, na esperança, suas concepções concretas e assim não coloca qualquer barreira à mesma, experimenta uma esperança e sinceridade inferiores, “que se contrapõem à insegurança fundamental do possuir. Essa esperança absoluta precisa de fé como fundamento. Sem fé, não existe, em última análise, também qualquer esperança que vá além deste mundo”. (resumo do texto de Grün, Anselm in – Virtudes que nos unem a Deus – Vozes – 2007 – pp.41-42- cf.Gabriel Marcel). E a fonte citada continua: Para Marcel, não existe esperança sem comunidade e sem amor, “Eu espero”, é, no fundo, sempre um “ Eu espero em você para nós”. Na esperança não fico preso em mim e em minha solidão, mas abro-me para o intercâmbio com os outros, com o próprio Deus, razão última do meu ser. Marcel acha que a atitude de “possuir” impede a esperança. Só quem se libertou de todas as formas das correntes do possuir, está em condições de experimentar “a leveza divina de uma vida na esperança”. Gabriel Marcel ainda diz que a “esperança é um dom de Deus”, aliás, isso abriu a filosofia da esperança para uma reflexão teológica sobre a virtude básica do cristão.
Portanto, na ótica dele, não pode haver esperança sem fé e amor. Caro leitor! Essa visão de Marcel, sobre a “esperança”, vem de encontro à bela e atual Encíclica “Spe Salvi” de Bento XVI, pois no 3ºcapítulo, aborda a imortalidade à luz da teologia cristã.
A VIDA ETERNA – O QUE É? – III Capítulo da Encíclica.
No 3ºcapítulo, o Papa parte de um questionamento. Se a “esperança” que sustenta, a vida é uma realidade que embasa o nosso caminhar, hoje. Em seguida, novamente, assume a questão da “informação” e do “performativo”. Nesse momento, ele faz recordar-nos do batismo, quando o sacerdote pergunta aos pais: O que é que pedis à Igreja? Resposta: “A FÉ”. Ora, Bento XVI alude que este diálogo é o acesso à fé: A vida eterna. Por quê? “A fé é a chave para a vida eterna”. Portanto, de acordo com a Encíclica, o batismo vai além de um ato meramente social, bem como o acolhimento na Igreja, mas esperam algo mais, ou seja, a fé de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos sacramentos – lhe dê a vida, a vida eterna. O Papa diz, categoricamente, usando uma linguagem da filosofia e teologia clássica, o seguinte: “Fé é sustância da esperança”. Mas, hoje, muitas vezes rejeitam a fé, pois acham enfadonho viver eternamente. Bento XVI assume o pensamento de Santo Ambrósio, expondo: A morte não fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte no princípio, mas deu-a como remédio. A imortalidade, que é um “germe” incrustado na essência humana, prescindindo da fé e da graça, seria mais penosa que benéfica. Santo Agostinho diz: “no fundo não sabemos o que queremos”, e mais: “Há em nós uma douta ignorância” (docta ignorantia). Somos prisioneiros do pensamento, imersos na temporalidade e não podemos achar que a “eternidade” é uma sucessão de dias do calendário. O que é eternidade? Bento XVI finaliza o capítulo, conceituando a mesma: “é o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados de alegria. ‘Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria’” (cf.Jo16,22). Essa é a visão cristã de esperança, segundo a Encíclica “Spe Salvi”.
Caro leitor! Pense e reflita.
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
Pe. Ari Antônio da Silva
Doutor em Filosofia e Vigário da Paróquia de Canela - RS

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