Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1243
Hoje: 03/12/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

QUARESMA – TEMPO DE REVISÃO DE VIDA
CF – 2008 – Tema: Fraternidade e Defesa da Vida
Lema: Escolhe, pois, a vida (cf.Dt. 30,19).


Caro leitor! A Igreja, neste período que inicia na 4ªfeira de cinzas, aborda um tema de extrema relevância para a sociedade toda: A Vida. A defesa da mesma faz parte essencial da pregação do Reino de Jesus. Esse, implantado na temporalidade, desafia a todos nós, seus discípulos, a nos posicionarmos no contexto da vida, na sua defesa, sob todas as formas. Em outros artigos publicados, tenho feito referências fortes e críticas mordazes à cultura atual, por essa defender, sob vários aspectos, a “morte em detrimento da vida”. Por quê? Simplesmente por estar na contramão da semente vital, incrustada na essência humana, que, desgovernada pela falta de autênticos valores, fez muitos dos seus membros perderem o gosto pela vida. O curioso é que intelectuais e pessoas que detém o comando da sociedade, privados dos reais valores, acabam conduzindo a sociedade, como uma “totalidade holística”, para um penhasco abismal. É assim que se instalou o que chamamos de “cultura de morte”, na expressão de João Paulo II e retomada por Bento XVI, na Encíclica “Spe Salvi”. Penso que a CNBB foi profundamente feliz ao escolher esse tema e lema, embora tenhamos que analisar, de forma crítica, alguns aspectos abordados dentro do texto base. De acordo com o secretário da CNBB, D.Dimas Lara Barbosa, vemos o seguinte: “A defesa da vida deve ser feita a partir dos critérios estabelecidos por Jesus e que estão presentes nos Evangelhos e explicitados na Doutrina Social da Igreja” (cf. Texto base – CF – p.7). E continua, D. Dimas, fazendo uma citação bíblica: “A chegada do Reino de Deus exige de nós sinais concretos de conversão” (cf. Mt. 3,8).
AS FONTES INSPIRADORAS DA CF- 2008
1- A 1ª fonte se reporta ao Concílio Vaticano II, quando esse, já na época, “condenava como infame ‘tudo’” aquilo que se opunha “à vida, (...)” como o “homicídio”, o “genocídio”, o “aborto”, a “eutanásia”, o “suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana”, também, a violação das “consciências”, ou seja, “condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; (...) as condições degradantes de trabalho”, instrumentalizando e tornando as pessoas verdadeiras mercadorias. (cf.op.cit. Texto base – p.10 – “Gaudium et Spes” – nº 27). 2- Essa, está alicerçada na Encíclica “Evangelium vitae”- Evangelho da vida, de João Paulo II. Aí, frisa o avanço da mentalidade individualista e utilitarista, com todos os problemas acima expostos. E pior, com a anuência legal do “Estado”. Diz o Papa: “O resultado de tudo isso é dramático: (...) grave e preocupante”, pois, além de tudo, soma-se o triste “fenômeno da eliminação” de muitas “vidas”. Em consonância com a mesma Encíclica, percebe-se um ofuscamento da “consciência” que não consegue mais discernir “o bem do mal”, justamente no que concerne ao “valor fundamental da vida humana”. (cf.op.cit. – Texto base – CF – p.10 – “Evangelium Vitae” nº 4).
3- A 3ª fonte é o texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe – Documento de Aparecida. Esse retoma as duas fontes citadas e reforça, quando afirma: “A fé não pode ser reduzida a normas e proibições, à repetição mecânica de princípios doutrinais ou ao moralismo”. E continua: “Nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez” (cf.Ratzinger, Joseph- “Situação atual da fé e da teologia”. Conferência pronunciada no Encontro de Presidentes de Comissões Episcopais da América Latina – 1996 – publicado no L’Osservatore Romano, de 01/11/1996). O Documento ainda interpela “o povo cristão deve ‘recomeçar a partir de Cristo’, reconhecendo que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida, e, com isso, uma orientação decisiva” (cf.op.cit. – Novo Millenio Ineunte, pp. 28-29).
A ESPIRITUALIDADE QUARESMAL À LUZ DA CF- 2008
Orientados pelo Documento de Aparecida, apontando a Palavra de Deus, no AT, que nos diz: “escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte” (Cf.Dt. 30,15), podemos definir:
“Caminhos de morte”: “Uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o ser humano e contra o bem dos povos latino-americanos. Caminhos de vida”: São “abertos pela fé que conduzem à ‘plenitude da vida, que Cristo trouxe’”. Assim, “se desenvolve”, sadiamente, na “‘dimensão pessoal, familiar, social e cultural’. Essa é a vida que Deus partilha por seu amor gratuito, porque ‘é o amor que dá vida’”. Caro leitor! A partir do Documento de Aparecida, vemos que o encontro com Cristo é o ponto de partida para a negação dos caminhos de morte e a escolha do caminho da vida. Portanto, é uma espiritualidade profundamente “Cristocêntrica”. Caro leitor! Pense e reflita.
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
Paróquia N.Sra.de Lourdes de Canela - RS
Pe. Ari Antônio da Silva
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha

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