Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1244
Hoje: 07/01/2009

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

O CONTRAPONTO AO NIILISMO (nada) CONTEMPORÂNEO
Síntese e comentário da Encíclica “Spe Salvi”, de Bento XVI.

Caro leitor! A Encíclica “Spe Salvi”, de certo modo, vai em contramão ao pensamento e cultura contemporâneos. Por quê? Ora, o relativismo é um dos traços marcantes da sociedade atual. Na mesma linha, emergem os seus derivados, ou seja: o individualismo, o pragmatismo, o excessivo acento na subjetividade, que conduz as pessoas a valorizar conceitos contraditórios, principalmente quando se trata de “ética” e “moral”, que não são sinônimos. Absurdos como: “eu tenho a minha moral”, “faço minhas regras”, como se vivesse sozinho e isolado dos outros. Daí, não há necessidade de regras. Atitudes, essas, denotam a ausência da filosofia e o conhecimento “preciso” do que é ética, moral e moralidade.
Vejamos: A ética tem sua origem no “ethos”, que fundamenta a ética. Essa é uma diretriz básica, que não dá regras e é ciência que estuda as morais. No entanto, a moral são as regras concretas e a moralidade é a vivência das mesmas. O filósofo Enrique Dussel define “ética” assim: “É a defesa do homem e da vida”. Pois, a partir desse princípio é que surgem as regras concretas. Portanto, não existe uma moral individual, mas sempre é comunitária. Dói, quando se ouvem líderes, políticos e outras autoridades usarem esses conceitos como sinônimos um do outro. É apenas um exemplo, para mostrar a superficialidade em que vivemos, como também a desorientação geral do nosso mundo. Está aí o resultado da absolutização do “relativismo”, que: “tudo vale, desde que me dê prazer”, princípio esse, da ética hedonista. Por esses e outros somos induzidos a comportamentos estranhos e excêntricos, em nome da liberdade de expressão, que nos produz a desesperança, a insegurança, vida sem futuro, desânimo, angústia e etc. Volto a dizer: a materialização disso são as doenças, muitas estranhas até para a ciência médica de ponta, pois não encontram o diagnóstico. Outros se afogam em vícios de toda a natureza para esquecer. Não vê um horizonte seguro, perdendo assim o chão firme.
A ESPERANÇA: RUPTURA DO OBSCURANTISMO ATUAL
Bento XVI, na Encíclica “Spe Salvi”, cita o Sl. 22: “O Senhor é meu Pastor, nada me falta (...) mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo”. E continua: “O Senhor mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora, e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem”. Caro leitor! Observe que Bento XVI frisa muito bem a profunda intimidade que existe entre “esperança” e “fé”. A partir desse binômio, Ele lança mão do termo latino “substância” próprio da tradução feita na Igreja antiga, para conceituar o termo “fé”. Vejamos: “a fé é a ‘substância’ das coisas que não se vêem”. Ele cita Tomás de Aquino, que diz: “a fé é um ‘habitus’, ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê”. Bento XVI diz que podemos afirmar que a “fé” é um “germe” das coisas que já estão presentes em nós e que esperamos. Esta presença daquilo que há de vir, cria também “CERTEZA”. Portanto, a fé não é apenas uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela nos “dá algo”. Dá-nos, já agora, algo da realidade esperada e esta realidade presente constitui, para nós, uma “prova” das coisas que ainda não se vêem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro “ainda - não”. O fato de este futuro existir muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras.
O TESTEMUNHO DOS PRIMEIROS CRISTÃOS E DOS SANTOS
Concluindo o II capítulo, Bento XVI, faz questão de frisar a alegria dos que descobriram Cristo em suas vidas. Lembrei-me, nesse momento, da frase de São Bernardo, quando afirma: “Quem um dia descobriu o Reino e se encantou por ele, perdeu o direito de viver sossegado”. O Papa, a essa altura, não titubeia em desafiar o “neo-niilismo”, que se pretende erguer-se novamente, principalmente nas nações desenvolvidas, onde o conforto da técnica e a absolutização da mesma, como resposta aos anseios humanos, sendo esses, falsos e enganosos. As grandes renúncias, como Francisco de Assis, pessoas do nosso tempo, institutos religiosos e movimentos, deixando tudo para levar aos homens a fé, o amor de cristo e a ajuda às pessoas que sofrem no corpo e na alma: esse é o sentimento de que vale a pena doar-se a Cristo. As ideologias sempre passam, mas Cristo sempre é. Nele temos que apostar, o resto é ilusão passível. Ele diz: “A fé confere à vida uma nova base, um novo fundamento, sobre o qual o homem pode se apoiar”. E mais: a confiança na riqueza material, Ele relativiza, e cria o sentido a partir da fé. Há uma consciência da nova “substância”, que nos foi dada, e ficou patente no martírio, quando as pessoas se opuseram à prepotência da ideologia e dos seus órgãos políticos, e com sua morte, renovaram o mundo. Da esperança, tocadas por Cristo, brotou esperança para outros que viviam na escuridão, sem esperança. Jesus é realmente o “filósofo” e o “Pastor” que nos indica o que seja e onde está a vida. A atitude fundamental do cristão é: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria”(cf.2Tm.1,7). Caro leitor! Pense e reflita.
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
Pe. Ari Antônio da Silva
Doutor em Filosofia e Vigário da Paróquia de Canela – RS
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