A DOR E O SOFRIENTO EM DOENTES TERMINAIS
Dando continuidade ao artigo do dia 04/04/08, gostaria de abordar, neste artigo, o segundo argumento dos defensores da eutanásia, ou seja: a dor e o sofrimento. Nunca podemos esquecer que, dentro de cada ser humano, há a semente da vida e o desejo profundo de viver. O que mais desconcerta o doente terminal, sem dúvida alguma, é a dor, que muitas vezes, é insuportável. Com certeza, essa induz, na maioria dos casos, ao doente, se estiver consciente, a pedir para morrer, afim de dar um basta a sua situação. Por outro lado, sabemos de inúmeros casos, dados como perdidos, e por algo que, muitas vezes, escapa aos nossos esquemas mentais, sensivelmente, a pessoa inicia um processo de "melhora" e tem o dom da cura, aliás, para o espanto de muitos profissionais da saúde. Surgem as perguntas: O que houve? Como? Aí está o mistério da vida e da morte. Já escrevi, nessa coluna, artigos sobre "Cura e transcendência". Muitos procuram dar soluções rápidas e objetivas, por "atalhos", quando por caminhos, como o da fé, podem ocorrer verdadeiros milagres, curas, até inexplicáveis. Com a aprovação de uma lei, baseada apenas em critérios humanos, científicos, morreriam antecipadamente. Caro leitor, lembre-se que a ciência não é absoluta e nem tem a última palavra. Pessoalmente, tive essa experiência de ter uma doença, na qual, o médico me disse: "a cada mil pessoas, uma se salva", tal era a gravidade do meu quadro clínico. Lembro-me de ter ouvido, no meu quarto, médicos, pessoas, enfermeiros(as), que diziam baixinho: "pena que não tem mais volta!". Quanta oração das comunidades pela minha cura! O Bispo já havia anunciado meu passamento. Hoje, estou trabalhando novamente pelo Reino de Deus, cheio de vida e saúde. Quantas pessoas que rezaram por mim, me visitaram e, muitas delas, posteriormente, tenho feito seu sepultamento. A vida é um mistério e a morte também. É muito difícil entendermos certos fatos.
COMO PROCEDER ANTE A DOR E O SOFRIMENTO, SEM A BUSCA DA "EUTANÁSIA"?
Em primeiro lugar, precisamos partir do princípio de que a vida é um Dom de Deus, e só a Ele cabe tirar-nos. Por outro lado, quando se diz que o homem foi feito "a imagem e semelhança" de Deus, significa: inteligência, vontade, discernimento, capacidade de pensar. Ora, estes atributos nos proporcionam o avanço dos "fármacos", isso é simplesmente extraordinário, até com produtos que podemos questionar sobre a sua eticidade. Portanto, dentro disso, quantos medicamentos podem ser fabricados para que a dor possa ser controlada e administrada. Lembro-me do Hospital Mãe de Deus, de Porto Alegre, onde permaneci três meses internado, no qual ouvia o médico dizer: "É grave a situação dele, mas não tem dor". De fato, eu não sentia dor e continuamente era assistido por psicólogos, terapeutas, sacerdotes, dois Bispos, aos quais me lembro, religiosas, amigos, familiares, que me davam ânimo e coragem. Nunca perdi a esperança de poder viver, tinha planos, sonhos que ainda me alimentavam o desejo de viver. Caro leitor! O controle e a administração da dor, além de preservar a dignidade da pessoa, respeita o curso normal da vida, até o seu declínio natural.
SUGESTÃO DO DR. DAVID CUNDIFF, HOSPITAIS DE RETAGUARDA, COMO ALTERNATIVA À EUTANÁSIA.
1- Em vez de legalizarmos a eutanásia precisamos promover e preparar médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde na medicina do hospital de retaguarda. 2- A qualidade de vida dos doentes terminais pode melhorar com a atenção dada à dor e a outros sintomas físicos, bem como o apoio psicológico, social e espiritual quer do paciente quer dos outros que cuidam dele. 3- As pessoas não querem pura e simplesmente a eutanásia quando estão fisicamente confortáveis e quando as necessidades emocionais são satisfeitas. 4- A medicina do hospital de retaguarda de excelente qualidade e disponível para todos é a alternativa positiva ao desespero da eutanásia. 5- Ter mais enfermarias para cuidados paliativos com profissionais experientes: médicos, enfermeiros e outros podem funcionar como locais de formação dos médicos e enfermeiros em medicina de hospital de retaguarda. 6- Ter mais apoio da família fornecendo ajuda emocional e psicológico. Vejamos o que nos diz Cundiff: "O paciente do hospital de retaguarda nunca ouve que não se pode fazer mais nada (...). No tratamento da dor e do sofrimento não segue o velho ditado, que diz: "O que não pode ser curado tem de ser agüentado"". (cf.ibidem p. 167). "O que é a dor? A dor define-se como uma desagradável experiência sensorial e emocional associada ao dano real ou potencial dos tecidos, ou descrita como termos desse dano". (cf.op.cit. Lindblom, U - Paim terms - A current list with definitions and usage - 1986). Nesse sentido, Cundiff diz que: "a criação de (...) hospitais de retaguarda reduziria o elevado custo dos tratamentos dos doentes terminais".
A TEOLOGIA CRISTÃ DO SOFRIMENTO E DA DOR.
É importante observar que Jesus, como homem, quis se assemelhar em tudo ao ser humano, menos no pecado. Ora, isso vem comprovar de que o sofrimento faz parte da essência humana e dele não podemos prescindir, mas sim administrá-lo, dentro dos limites de tempo e espaço. Caro leitor! O próprio Jesus nunca deu uma resposta teórica à pergunta por que temos de sofrer. Vejamos: "(...) Ele tomou uma atitude perante o sofrimento das pessoas: curou doentes, endireitou pessoas curvadas. Mas não tirou todo o sofrimento do mundo. E, finalmente, experimentou o sofrimento em seu próprio corpo. Ele não fugiu dele, mas o assumiu. Mostrou-nos assim um caminho de como nós também podemos lidar com o sofrimento"(cf.Grün, Anselm - O Livro das respostas - Vozes - 2008 p.217). É claro que não devemos buscar o sofrimento ou atrair para nós, mas quando ele aparecer em nossas vidas que saibamos olhar sob a ótica da fé. Vejamos: "(...) A fé é uma ajuda importante para suportar o sofrimento. Quando em meu sofrimento, sei que sou amparado e estimado por Deus e nele percebo meu espaço interior no qual Deus mora em mim, então lá o sofrimento não tem acesso. Não consegue me derrubar" (cf. ibidem p.218).
Caro leitor! Pense e reflita. Paróquia N.Sra. de Lourdes - Canela - RS
Pe. Ari Antônio da Silva - Capelão do OASIS Santa Ângela - Canela
Doutor em Filosofia - UPSA - Salamanca - Espanha
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br
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