Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1254
Hoje: 02/12/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

A TRILOGIA DOS BASTIDORES DA EUTANÁSIA III
A sacralidade e a qualidade de vida no contexto da sociedade contemporânea. Caro leitor! O terceiro e último motivo pelo qual os defensores da pró-eutanásia se baseiam e conseqüência de uma cultura secularista e a gradual tendência à total dessacralização. Percebe-se nessa, a confiança absoluta no poder da ciência, como resposta aos grandes desafios do ser humano. Sem dúvida, que a reivindicação da autonomia do homem contemporâneo, frente à questão da vida tem de positivo, legítimo, assim como podemos considerar da parte do homem atual, um traço de maturidade na condução do processo histórico. Vejamos o que nos diz o teólogo jesuíta Jungues em relação ao assunto: quando esse chama do “princípio de inviabilidade”, princípio esse, de acordo com Jungues, vê “a vida como prosperidade de Deus e o ser humano como seu mero administrador. (...) essa”, diz o teólogo, “é uma visão estreita de Deus e desvirtuada do ser humano”. Dentro dessa contextualidade é que Jungues diz: “A humanidade chegou à sua maioridade e tem condições de defender a vida com critérios racionais”. (cf. Bioética – Perspectivas e desafios – Coleção Focus – 1999 – p. 113). A partir dessa reflexão, Jungues contempla a autonomia, como um valor positivo, isso também, porque incorremos na absolutização da ciência como resposta última para todos os problemas do homem. Vejamos o que Jungues nos faz refletir: “(...) é necessário lutar pela qualidade de vida, pelo direito de viver com dignidade (...) lutar pela defesa da vida intra-uterina e não se interessar ao mesmo tempo, pelas condições que viverá esse ser, uma vez nascido, é uma contradição e incoerência” (cf. ibidem p. 114). Aqui, Jungues chama a atenção de que o simples princípio “inviolabilidade e intangibilidade” da vida não responde ao problema na sua totalidade e deixa a desejar, pois é preciso levar em conta a qualidade de vida, e esse é o argumento usado pelos defensores da pró-eutanásia, alegando não valer a pena viver uma vida nessas condições. Jungues argumenta que a questão “qualidade”, vista pelos defensores da eutanásia, é “uma perspectiva negativa de qualidade”.
Sacralidade ou defesa de vida?
Caro leitor! Com certeza, uma não exclui a outra. A fé cristã vê o homem como uma totalidade. Em toda a teologia judaico-cristã, a antropologia contempla o ser humano não como um simples fenômeno psíquico-físico, mas como uma totalidade tríplice. Vejamos: “Para uma concepção integral, a vida deve ser compreendida segundo três dimensões da pessoa humana: corporal, psíquica e espiritual” (cf. ibidem p. 118). Ora, diz Jungues: “A pessoa subsiste no corpo e, portanto, a dimensão psíquica e espiritual da pessoa subsistem no corpo. Ele é a manifestação da pessoa em sua totalidade.” (cf. ibidem). Nessa perspectiva, é que emerge o conceito de qualidade de vida que podemos traduzir como “saúde”.
O que vem a ser saúde?
Dentro do conceito popular, saúde é simplesmente a ausência de doença. É do nosso conhecimento, a expressão: “A saúde, quando a temos, tudo está bom, o resto a gente ajeita!”. O teólogo Jungues faz uma observação crítica a esse conceito e tenta ampliar o conceito de saúde. Vejamos: “(...) o funcionamento de todos os órgãos humanos (...) é uma visão comum corrente peca por estreiteza e simplismo devido ao seu biologismo e individualismo”. E continua: “(...) A vida humana, através do corpo, é essencialmente relação e, sendo a saúde uma qualidade de vida, ela deve expressar essa dimensão racional e social. Por outro lado, não basta uma concepção puramente biologizante da vida e da saúde, porque o somático está intimamente implicado com o psíquico e o espiritual” (cf. ibidem p. 120). Vejamos o conceito que OMS diz: “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Outro conceito: “(...) saúde é a capacidade de se adaptar a um meio em contínua mudança; capacidade de crescer, e de envelhecer, de curar, às vezes, de aceitar, quando necessário o sofrimento e finalmente esperar a morte em paz” (cf.op.cit. – P. Verspieren p. 120). Esse mesmo autor afirma: “(...) a saúde é a capacidade de agir a todas as situações que tenderiam por si mesmas a debilitar seu potencial e seu dinamismo de vida, mantendo o maior grau possível de autonomia e capacidade de agir” (cf.ibidem p.121). De acordo com o teólogo Jungues, esse conceito condiz mais com uma concepção personalizante da saúde, porque aponta para uma qualidade fundamental da existência humana que é autônoma. E continua o autor: “sadia é a pessoa que consegue de tal maneira integrar na própria vida uma perturbação de bem-estar físico, psíquico e social que possa realizar-se como pessoa, não perdendo o sentido da própria dignidade e lutando para modificar aquelas coisas que sejam possíveis de mudar e integrando aquelas que sejam um dado imodificável” Finalmente diz Jungues: “Doente é aquela pessoa que se encontra debilitada em seus mecanismos de reação somáticos, psíquicos e sociais e cuja cura consistiria em recuperar ou fortalecer estes mecanismos. O exercício da medicina está fundamentalmente a serviço desta recuperação e o fortalecimento da capacidade de reagir. A saúde é compreendida e interpretada a partir da autonomia”. Caro leitor! Tudo isso faz com que pensemos muito nos argumentos pró-eutanásia com muita facilidade. Pense e reflita.
Paróquia N.Sra. de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS Sta. Ângela – Canela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br.

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