Jornal de Canela

ANO XXIII - EDIÇÃO Nº 1258
Hoje: 03/07/2008

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Fé, Diálogo & Conhecimento

SANTÍSSIMA TRINDADE: A RAIZ DO CRISTIANISMO.
Caro leitor! Nesse próximo domingo, a Igreja celebra a solenidade da “Santíssima Trindade”, ou seja: “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. Por que é uma solenidade de primeira grandeza? Ora, a Trindade é o cerne do Cristianismo, em outras palavras: toda a teologia cristã está alicerçada nesse augusto e profundo mistério. Só podemos entender um pouco dessa realidade, partindo da experiência de fé, pois dela escapa totalmente a dimensão racional. Esse é o dilema do homem contemporâneo, que quer conduzir a totalidade da realidade ao centro do “eu penso”. Precisamos nos dar conta de que Deus nunca se deixa agarrar pela razão humana e, com certeza, isso angustia o ser humano. A isso, cabe citar Santo Agostinho: “Crer para compreender e compreender para crer”. O próprio Agostinho, em seu livro “As confissões”, exclama: “Minha alma está inquieta enquanto não repousa em Ti”, certamente Agostinho retrata bem o perfil do pensamento contemporâneo. É muito conhecida uma estória de Agostinho, quando passando pela praia, viu um menino colocando água num pequeno buraco que fez na beira da mesma. Conta-se que Agostinho perguntou ao menino: O que estás fazendo? Esse respondeu: Vou colocar toda a água do mar nesse buraco. Agostinho sorriu e disse ao menino: Isso é impossível! Retruca o menino: É mais fácil você colocar toda a água do mar nesse buraco, do que compreender o Mistério da Santíssima Trindade. Para muitos de nossos contemporâneos, seria necessário alguém insuspeito responder, com toda simplicidade, àqueles, que, de forma arrogante, tentam afirmar que só existe o que se pode ser comprovado pela experiência e pela lógica.
A TEOLOGIA DO MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE.
Com certeza, o tema da Trindade é de extrema dificuldade de compreensão enquanto inseridos na historicidade, e, por isso, chamamos de “Mistério”. Como estamos numa sociedade onde tudo se pode pensar e descrever em partes, para que, num segundo momento, se possa juntar tudo dentro do centro de unidade de compreensão humana, que é a razão. É claro que muitos preferem buscar outras respostas estranhas, obscuras, quando não exóticas. Podemos ver essa dificuldade já nos primórdios da Igreja, quando predominava, na sociedade, a cultura helênica, que sempre teve como hábito, fazer distinções nas dimensões das querelas “dialéticas” ou “dicotômicas”, que também eram de difícil compreensão. Onde se encontram os problemas relacionados à Santíssima Trindade? Vejamos o teólogo Sinivaldo S. Tavares, em seu livro “Trindade e Criação”. Pergunto ao teólogo: 1. Como entender o paradoxo da coexistência simultânea de Deus em três diferentes pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, da unidade indivisível das mesmas? 2. Como entender a diferença e unidade que coexistem, se revelam como dimensões recíprocas e intrinsecamente, que são constitutivas? Caro leitor! “Três pessoas num só Deus”, o desafio está exatamente no equilíbrio entre diferença e unidade. Vejamos o autor que, textualmente, nos responde: “(...) só há diferença em Deus, por que há nele unidade e, por outro lado, só há unidade em Deus, por que nele há diferença. A diferença se revela, portanto, como alteridade; e a unidade, como comunhão. Diferença e unidade, em tal caso, não são atributos que se justapõem em Deus, pois enquanto alteridade e comunhão, elas correspondem na verdade a dimensões reciprocamente constitutivas do augusto mistério da Trindade”. (cf. Tavares, Sinivaldo S. Trindade e Criação. p. 93. Vozes. RJ. 2007). De acordo com o autor, essa profissão de fé, na Trindade Santa, sem dúvida alguma, é um dos mais árduos desafios de nossas comunidades na longa tradição eclesial. Por outro lado, o cerne do cristianismo é exatamente o Mistério da Trindade. Portanto, ao longo da história e em nossa época, há muitas correntes que negam a divindade de Jesus. Ora, a recusa da mesma aniquila a Trindade e, consequentemente, acaba com a fé cristã. Ou aceitamos Jesus como Deus e homem que foi, ou não somos mais cristãos. Eis o desafio para muitos contemporâneos!
A SANTÍSSIMA TRINDADE SE REFLETE NO ROSTO HUMANO.
Caro leitor! A bíblia, em Gn. 1, 27, faz a seguinte afirmação: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”. Curiosamente, a antropologia sempre nos aponta o ser humano, como um “ser de relações”. O processo de intersubjetividade é uma necessidade do homem, pois “homem algum é uma ilha”. A nossa semelhança em relação à Trindade, nos devolve a “dignidade” que perdemos pelo pecado da soberba. Portanto, há uma relacionalidade estreita e íntima que constitui nossa existência. Vejamos: “(...) somos cada vez mais conscientes de que a vida nos alcança, na singular experiência da gratuidade, através e mediante distintas mediações: humanas, sociais e cósmicas” (cf. ibidem p. 252). É interessante notar que a abertura ao outro e introspecção, nada mais são que dois movimentos de um mesmo projeto e, por essa razão, devem ser dialetizados. Ora, isso nos leva a perceber que no final, somos fruto das interações sociais. A partir dessa ótica, fica claro o quanto a sociedade contemporânea está fora do seu “centro”, e, por isso, doente e triste, pois acentua, de forma exagerada, o “antropocentrismo” e o “individualismo”. Caro leitor! Essa postura atual vai contra a genuína natureza do ser humano, que é racional, assim como a Santíssima Trindade. A fatalidade da civilização contemporânea é esse “ensimesmar-se”, que é paradoxal ao projeto divino. Vejamos: “(...) é uma acolhida do outro no seu abandono, fraqueza e desumanidade, e é no gesto de compaixão e solidariedade face à sua dor e o seu abandono, que se revela a nobreza maior do ser humano e, portanto, sua mais elevada dignidade”. (cf. ibidem p. 252). Caro leitor! A Santíssima Trindade é unidade na diversidade e nós, à sua imagem e semelhança, precisamos desenvolver sempre mais espiritualidade de vida e comunhão a exemplo da mesma. Pense e reflita!
Paróquia Nossa Senhora de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão – OÁSIS Santa Ângela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha

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