Outros anos, falei sobre o assunto antes das comemorações, por isso, neste ano resolvi escrever depois.
Falo das Festas Juninas tão ao gosto de escolas, professores e alunos, que já inventaram as festas julhinas, isto para homenagear os santos do mês de junho (Santo Antônio, 13; São João, 24; São Pedro e São Paulo, 29). Num futuro bem próximo, com certeza, aparecerão as agostinas.
O que vemos nessas festas (conforme matérias e imagens divulgadas pelos jornais e cartazes convidando para as mesmas) é uma total falta de informação e conhecimento, que beira o ridículo, onde a ordem é ignorar toda e qualquer noção de boas maneiras, higiene, moral, educação, etc, além de zombar de um grupo social, do clero e até do judiciário. Senão vejamos:
Ao invés de fazerem uma Festa Junina Gaúcha, com pinhão, arroz-de-carreteiro, galinhadas, churrasco e chimarrão, dançando chotes, vanerão, rancheira, etc, manifestações com as quais a criança se identifica, vemos as Festas Caipiras com crianças maltrapilhas, com aspecto de sujas, caras "bichiguentas" e dentes "podres" (à força de carvão - enquanto são gastos milhões de reais em programas de higiene bucal!) e o famoso "casamento caipira" onde temos uma noiva (sempre grávida) acompanhada do pai de arma em punho, um noivo com cara de débil mental, além de padre, delegado e juiz travestidos de incultos. E o mais: o importante é falar errado.
Tudo isso, na escola que prega boas maneiras, saúde, higiene e noções de cidadania.
A título de informação, aos menos informados, vale lembrar que caipira, segundo os dicionários é um tipo social habitante do campo ou da roça, em geral com pouca instrução, mas um povo digno e trabalhador. Pela sua falta de informação sobre bons costumes, peca muitas vezes na maneira de vestir, usando calças à meia canela, casacos apertados, botinas, etc. Mas nunca, em nenhum momento aparece em festas, mal vestido ou sujo. Veste o que tem de melhor, apesar de estar "fora de moda.
Vemos pela televisão a cada ano a força dessa cultura, nas comemorações de São João pelo Brasil, com seus bailados e grupos de danças, seus cantadores, sua gastronomia típica e a tradicional quadrilha. Roupas que primam pela beleza, outras pela simplicidade e até pelo luxo. Festas que amealham grandes somas de dinheiro em patrocínio e mídia.
Aí, pergunto? Como reagiríamos se, no interior de São Paulo, em uma Festa de São João, inventassem um casamento gaúcho, onde predominasse bombachas remendadas, botas sem salto, nosso lenço (símbolo de tantas glórias) em tiras e a noiva de vestido de prenda com rasgões e remendos, denunciando uma barriga de travesseiro? Com certeza, um total desrespeito com a mulher gaúcha e uma agressão à sua singeleza, educação e à sua formação moral.
O assunto merece uma atenção especial, principalmente quando se trata de educação infantil, pois sendo a escola o segundo núcleo de identidade da criança (o primeiro é a família), ela exerce forte influência no contexto cultural.
Telmo L. Muller, diretor do Museu Visconde de São Leopoldo (in Torres - Marcas do Tempo - 2003) fala com propriedade sobre identidade e cita o musicólogo Flávio Oliveira numa afirmação tão forte quanto verdadeira: a sanidade mental depende da ligação com a identidade. Mais adiante, cita o pedagogo Lúcio Kreutz que diz: examinando o fracasso da escola, podemos ver que ela não parte do contexto cultural. Em outras palavras, não parte da identidade da criança.
A criança se identifica com aquilo que ela vê em seu círculo de convívio, cultura vivenciada na família, na escola e na sociedade. Aí temos nosso rico folclore com canções, danças, brincadeiras, além da própria história do Rio Grande do Sul, que é diferenciada e única no Brasil.. É a cultura gaúcha ao nosso redor, nas suas mais variadas manifestações, aguardando a participação ativa da criança. Quanta coisa bela e importante rodeia a escola! Mesmo assim, muitos preferem entusiasmados, fazerem Festas Juninas (ou julhinas) zombando de outras culturas...
A título de informação sobre o assunto, vale consultar as obras Festas Juninas e Os Santos Padroeiros e São João na Tradição Gaúcha, de J. C. Paixão Côrtes, que dispensa maiores comentários.
Pedro Oliveira
pesquisador, tradicionalista
Canela/RS
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