A cada dois anos sentimos uma estranha sensação. Experimentamos a sensação de já ter visto algo semelhante em algum lugar, em outro momento, com outras feições ou sob outras alegações. Reclamamos. Afirmamos repúdio a certas condutas, pessoas, facções. Todos nós dizemos que não queremos mais que as coisas aconteçam sempre do mesmo jeito. Queremos novidades. Sentimos cheiro de novo. Reconhecemos o sabor daquilo que desejamos.
A cada dois anos observamos novas pessoas buscando proximidade com os espaços públicos.
Ou, por vezes, as mesmas pessoas com novas idéias. Ou, ainda, novas pessoas com as mesmas idéias. Mesmos sujeitos com novas idéias. Velhas idéias em novos sujeitos. Eles são os mesmos? Parecem ser sempre os mesmos. Eles vão. Suas idéias ficam. As aparências mantêm as coisas em seu estado mais familiar. Falamos de processos eleitorais.
Nossos municípios respiram, inspiram e expiram as eleições municipais. Nestas ocasiões, nos acostumamos com as mesmas práticas: carros de som pelas ruas anunciando paródias de um novo tempo; comícios que trazem seus públicos para evitar a sensação de estarem sós; carreatas com incontáveis veículos e suas manifestações de poder; distribuição de panfletos com imagens, fotografias, siglas, emblemas e numerações; pequenas placas indicativas de partido ou candidato. Mudam os personagens. A retórica permanece. O candidato é sempre o mesmo. A sigla é sempre a mesma. As idéias são as mesmas. Mudam seus rostos, mas suas idéias, candidaturas ou siglas estão por aí.
Mas, mesmo com a repetição, a cada pleito a esperança se renova. Voltamos a ver e ouvir noticiosos locais, na expectativa de acompanharmos os discursos, debates e slogans. A eleição renova os ânimos. Altera a rotina das pessoas e instituições. Cada cafezinho tem um novo sabor, se temperado por um salutar papo eleitoreiro. Discutimos política, mesmo afirmando não sermos políticos e, ironicamente, negarmos nosso interesse por ela. O movimento na cidade nos cativa: bandeiras, cores, dinâmicas, agrupamentos. As candidaturas tornam-se um importante meio de aproximação e sociabilidade entre as pessoas: E aí, como está teu candidato?. Há outro clima, mesmo sob uma desgastante rotina eleitoreira já bem conhecida.
Ano eleitoral, sempre o mesmo, mas sempre outro. Candidatos, sempre os mesmos, mas sempre outros. Não uma relação dialética em que o novo precisa se ausentar para dar espaço ao velho, ou acompanharmos a redução das pulsões do novo ao tornar-se velho. Observamos que a condição do mesmo (mesmidade) e a condição do outro (outredade ou alteridade) ocorrem juntas, nas próprias práticas sociais. As sensações e experiências políticas na contemporaneidade revelam esta ambivalência: o mesmo e o outro. O outro e o mesmo.
Ora! Isso fica evidente quando assistimos um comício, o mesmo de outros anos (com os mesmos entes, ali no mesmo lugar), mas apreciamos com a sensação de alcançarmos a transcendência. Vibramos. Torcemos. Sofremos. Há algo de experiência nova a cada bandeira que se move naqueles terrenos. A política é a mesma e se renova a cada manifestação social.
Aprendemos que política se faz nas ações das pessoas. Há uma política que se faz com a nossa presença. O mais cético dos cidadãos, se deixa seduzir por uma carreata à frente de sua residência. O mais intransigente regozija-se com a visita de um candidato a sua porta. Aquele que diz não ser político ou não gostar de política discute as eleições com seu colega de trabalho.
A experiência de fazer política é cotidiana. Não está nos candidatos, partidos ou quaisquer anunciações, está impregnada em nossa condição de seres políticos. Essa experiência de fazer política está marcada em nossas escolhas, em nossas preferências, em nossos estilos, em nossos círculos de convivência, em nossas candidaturas, em nossas interações.
Sempre a mesma e sempre outra.
*Rodrigo Manoel Dias da Silva
Professor.
rodrigo_ddsilva@yahoo.com.br
Pedagogo (UERGS)
Mestre em Ciências Sociais (UNISINOS), desenvolvendo investigações na linha de
pesquisa Atores Sociais, Políticas Públicas e Cidadania.
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