Jornal de Canela

ANO XXV - EDIÇÃO Nº 1317
Hoje: 13/03/2010

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Seção: Entremeios

Débora Freig Paludo deborapaludo@ymail.com

Artistas da vida
“Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”. A frase do genial Pablo Picasso reporta-se às pessoas movidas pela razão em contraste com as que têm uma percepção mais ampla da vida. É bem possível que haja um pouco de artista em cada um de nós pedindo para aflorar. A decisão é nossa. Artista é aquele ser que percorre os meandros da criatividade com o coração, sem receio dos olhares castradores de seus desafetos. Existe muita confusão ao se atribuir fraqueza e vulnerabilidade ao indivíduo sensível, como se o predomínio da razão fosse sinônimo de força. Mas, não se pode esquecer que sensibilidade é atributo dos mais atentos e perceptivos e ultrapassa qualquer compreensão puramente lógica. Como disse Leonardo da Vinci, “a arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”. Henry W. Beecher lembra que “todo artista molha seus pincéis em sua alma, e pinta sua própria natureza”. Uma obra carrega parte do criador e quanto maior a doação, mais impactante e expressiva se torna, por manifestar a essência do artista falando diretamente à essência das pessoas. Não pode ser aferida somente com os olhos físicos, porque toca sentimentos e emoções profundas de quem a observa. Um artista sabe que ao ganhar forma, sua criação passa a ter vida própria, seguindo seu caminho e encontrando eco nos anseios de quem a contempla sem, com isso, perder sua personalidade. Oscar Wilde advertiu que “no momento em que um artista descobre o que as pessoas querem e procura atender a demanda, ele deixa de ser um artista e torna-se um artesão maçante ou divertido, um negociante honesto ou desonesto. Perde o direito de ser considerado artista”, porque passou a ser mero comerciante de um objeto frio, sem expressão. O ato de criar ou interpretar exige do artista que exercite sua capacidade de ler, com as lentes da percepção e da sensibilidade, as informações sutis que o rodeiam, trazendo da imaginação verdadeiras obras primas. Precisamos da arte para dar sentido ao existir. Talvez seja por isso que o artista vá além - e muitas vezes na contramão - da maioria. É um vencedor, mesmo sem os aplausos de uma plateia. Artistas têm um quê de especial: caminhando num passo ligeiramente diferente, são pouco afeitos aos detalhes insignificantes que costumam ocupar boa parte da humanidade. Vivem numa oitava superior, mesmo em um mundo que privilegia a razão e os cobre de preconceito. Disso nem os renomados escapam... Para ser um artista, não é necessário ser “letrado” e detentor de extensa bagagem cultural. Além dos grandes gênios, há o artista que brota do indivíduo que faz da sua vida uma obra de arte, com todos contratempos do dia a dia. É aquele que luta por um ideal, que acredita na força da existência e na beleza da poesia de um por de sol, num canto de pássaro, no vento que põe os cabelos em desalinho, que não teme demonstrar que sente e sofre, que vê sentido no aparentemente banal e desconexo e deleita-se com pequenos prazeres. Também é aquele que dribla os parcos recursos com soluções inusitadamente possíveis, que inspira-se na dureza da realidade, extraindo-lhe a matéria prima capaz de imprimir sua marca, reinventando e reescrevendo o próprio roteiro. Com olhar de censura, como acreditar que aquele velho violeiro - que mal sabe escrever o nome - possa nos tocar de um modo nunca imaginado, ao dedilhar acordes e soltar a voz? E como desconfiar que aquele “inconsequente” que pega uma estrada em busca de seus sonhos, sem data para voltar, tenha muito mais a nos contar e a nos ensinar do que alguém que se negou a seguir por medo ou comodismo? Conheço gente que ousou e ousa escrever seu enredo, gente cuja trajetória é muito mais interessante do que qualquer romance ou ficção que se conheça... Arte é para ser vista, sentida e vivenciada com todos os sentidos e com “algo mais”. E é justamente esse algo mais que separa os artistas e apreciadores da arte dos não artistas. Estes, pautam suas vidas no “eu adquiri” e no “eu tenho”; artistas pautam sua vida no “eu vivo”. A diferença fala por si... Para aqueles que se vangloriam, julgando-se perfeitos (ou quase), por pairarem acima das emoções e terem domínio sobre si, segue um lembrete, envolto na inegável verdade impressa nas palavras de Voltaire: “os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande”...
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