Jornal de Canela

ANO XXV - EDIÇÃO Nº 1317
Hoje: 10/03/2010

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Seção: Guia de Pesca

Biólogo

Gustavo De Marchi (gustavo@lojadepesca.com.br)

Imagem da notícia: Biólogo - Gustavo De Marchi (gustavo@lojadepesca.com.br)
Cachorrada
Estou novamente na Argentina, em Paso de la Patria, encerrando ótimos dias de pesca fantásticos, com muito sol e pouco frio, apesar da água gelada. Novamente tentei pegar “El Dorado Loco” e fui ludibriado por este peixe infernal. Cuidarei dele mais tarde, “quedate tranquilo”. O que sinto neste momento, fora a exaustão causada pela batalha com os dourados, é aquela paz causada pelos grandes cenários de pesca. Como pescador, sou assaltado pela vontade de pescar cachorras. Sonhava com o dia em que eu poderia pescá-las há muitos anos. Aqueles dentes enormes furando a própria boca, por falta de espaço para crescerem, o olhar traiçoeiro de bicho maleva e o corpo esguio de peixe nadador. Lembra um tigre, um animal que merece respeito e nenhuma confiança. Surgiu a tal oportunidade tão esperada, inesperadamente. Estava conversando, por estes dias, com Martin, um grande figura, que tem o programa de pesca mais antigo da televisão. Contou-me de um cardume de cachorras que costuma ficar estacionado na frente da polícia naval, antiga Fortaleza de Itapiru, no Paraguai. Não era longe. Quem sabe? A Fortaleza de Itapiru localizava-se na margem direita do rio Paraná, próximo à sua confluência com o rio Paraguai. No contexto da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), esta fortificação controlava o acesso à província argentina de Corrientes, primeiro obstáculo a ser vencido pelas forças do 1º Corpo de Exército brasileiro. Estive pescando na companhia de grandes nomes da pesca de dourados na Argentina esta semana. Já no primeiro dia, tive a satisfação inenarrável de ser guiado pelo Gonzalo, pescador de fly, dono da pousada onde nos hospedamos e um conhecedor das artimanhas dos dourados. Acompanhado pelo Érico e pelo Paiva, fomos conhecer as belezas selvagens da região e os grandes pontos de pesca, rio acima, com águas transparentes vegetação abundante e jacarés nas margens. Ilhas e mais ilhas, com pedreiras e praias de areia, misturadas com ambientes de mata inundada de muita pauleira, com corredeiras. Estou estupefato por ter podido pescar em lugares como estes. E o mais incrível, ambientes completamente diferentes em um mesmo lugar e, o melhor, sem um humano na volta. Pescamos, também, com Javier, proprietário de uma ótima empresa de guiagem em Goya. Outro monstro no rio. Encontra o dourado pelo cheiro, além de ser uma personalidade carismática e divertida, que nos proporcionou estrondosas gaitadas e peixes monumentais. Hoje pescamos com um guia novo na pousada, o Julio, mas que nasceu dentro da água. Ensinou-nos sua forma particular de pescar: uma técnica revolucionária, que nos rendeu fantásticos troféus e mentiu-nos descaradamente, que estava apenas querendo aprender conosco. Em três dias de pesca, ferramos dourados de 2 a 9 kg, nos mais variados locais e com a maior variedade de iscas. E as cachorras? Pois eu teimei tanto que a turma resolveu largar um pouco dos dourados e me acompanhar na busca pelas cachorras. Fizemos a Licença de Pesca paraguaia e nos mandamos atrás das dentudas. Pescamos por horas e nada. Nem um latido. Todos me olhavam com a agressividade que eu procurava nos peixes e amargurado desisti para não fazer companhia a ancora. De fato, do outro lado do rio, os dourados atacavam a mil e eu a pescar sonhos. Voltamos aos dourados quando o sol pegava o rumo do rio. Acertamos um grande cardume. Um veio de ouro dentro da água. Não vou dizer que jorravam peixes, mas quase! Foi uma sucessão de dourados embarcados que não acabava mais. E, quando o sol se punha vermelho como uma omelete de ovos de galinha caipira, todos pescadores estavam com um peixe ferrado ao mesmo tempo, uma bagunça! Diante de tantos peixes e após tantas horas perdidas, tive que ouvir: que cachorrada que tu nos aprontaste! Fizemos muitas pescarias distintas, cada qual constitui um episódio de vida destacado. Pescamos dourados, savalos gigantescos com jump jig e não pescamos as cachorras da Fortaleza de Itapiru.
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