Jornal de Canela

ANO XXV - EDIÇÃO Nº 1348
Hoje: 11/03/2010

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Seção: Entremeios

Débora Freig Paludo deborapaludo@ymail.com

Tudo bem simples Observando pessoas que conversavam despreocupadamente numa roda de chimarrão, saboreando sem culpa uma tigela de bolinhos de chuva, me fez voltar à infância e a toda aquela alegria que só as crianças conseguem se permitir. Como o riso era fácil e como os problemas eram pequenos... A maior preocupação era como aproveitar o dia. Infelizmente, a maioria de nós cresce e deixa a espontaneidade ceder lugar à rigidez. Com o tempo, a criança que habita em cada um de nós, vai se apagando até que quase não restem mais vestígios. Cruelmente, condenamos e aprisionamos a melhor parte de nós. Mas, voltando àquelas pessoas da roda de chimarrão, o que mais chamava a atenção é que realmente pareciam felizes. A aura de contentamento que delas emanava conseguia contagiar até a mais rabugenta das criaturas. Eram pessoas absolutamente normais, com histórias difíceis e muitas vezes tristes, como qualquer um de nós. Eram pessoas simples, daquele tipo de simplicidade que transcende rótulos. E o mais importante é que detinham a maior de todas as sabedorias: sabiam viver. Acordar com o canto dos pássaros para uns é torturante, enquanto que para outros, é como uma espécie de prenúncio de um bom dia. Levar a vida de um jeito mais descomplicado, ao contrário do que seria de se supor, não é obra do acaso ou de desleixo. É antes de tudo, uma questão de atitude. A todo instante somos brindados com o grande espetáculo que a vida nos oferece. Tudo o que ela nos pede é sensibilidade para perceber e receber essa dádiva. Um por de sol esplendoroso, uma brisa que refresca, uma chuva mansa que acalenta, são presentes constantemente colocados a nossa disposição. Os arranjos são infinitos e abundantes. A única exigência é a de que nos despojemos de tanta carga inútil e abramos espaço para o pulsar da vida. Podemos nos conformar com o papel de espectadores inertes ou, o que é melhor, interagir com esse cenário enriquecendo nossas relações. O bom convívio depende, antes de tudo, de se estar receptivo, de se abrir as portas para o outro. Às vezes, parece tão complicado... O receio de invadir ou de ser invadido acaba criando armaduras que nos enfeiam com ares artificiais, palavras estudadas e gestos amarrados. O grande Shakespeare confessou ter aprendido que o que torna a vida espetacular são os pequenos acontecimentos diários. E é verdade. Talvez seja o caso de prestarmos mais atenção às aparentemente insignificantes ocorrências de todo dia, como andar descalço, molhar-se na chuva, vestir uma roupa com “cheirinho de sol”, passar o dedo na cobertura do bolo, tomar um chimarrão com gente querida, dar e receber um abraço, admirar-se com a beleza do luar, fazer um cafuné... A simplicidade não nos blinda contra as dores e dificuldades, mas com toda certeza torna mais leve o nosso fardo e mais bela nossa existência.
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