Jornal de Canela

ANO XXV - EDIÇÃO Nº 1348
Hoje: 03/09/2010

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Seção: Fé, Diálogo & Conhecimento

Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS

A CRISE EXISTENCIAL DA MEIA-IDADE E O VALOR DA DEPRESSÃO
COMO UM SINAL DE TRANSFORMAÇÃO
A depressão, na questão de como lidar e conviver com ela, trata-se sim de uma verdadeira arte. Esse fenômeno não algo exclusivo dos tempos atuais, apesar de que hoje, já se acentuou tanto a depressão que acabou em muitos casos numa patologia. Jesus em muitas situações lidou com depressivos, inclusive com seus próprios discípulos. Portanto, a depressão não é algo novo e muito menos é negatividade. Todos nós temos momentos depressivos. Por que hoje crianças e jovens também sofrem do mesmo fenômeno? A observação é pertinente e tem lógica. Em outras palavras: a sociedade contemporânea fez uma opção séria, ao jogar, subestimar e relativizar questões básicas para o equilíbrio de uma personalidade em formação como valores, princípios, ética e a moralidade. Ora, o incentivo a uma pseudo-liberdade, faz com que as novas gerações se sintam inseguras e desconfortáveis. Isso leva inevitavelmente a questão do sentido que é a meta a ser atingida, contudo, quando a meta não aparece, explode a “síndrome do pânico”, o medo e a depressão em geral sob um enfoque patológico. Muitas crianças e jovens não aprendem mais a brincar, e curtir a infância e a juventude. Os espaços todos são preenchidos por programas previamente organizados, fato que bloqueia o senso da criatividade, do lúdico e da iniciativa. Daí, à depressão é um passo.
A DEPRESSÃO SOB O ENFOQUE DO PSICÓLOGO, ANALISTA E TERAPEUTA CLÍNICO CARL JUNG
De acordo com esse profissional da saúde, a depressão ocorre em geral na meia-idade. Isso não quer dizer que em outras fases da vida humana não ocorra, como já abordei no texto acima. Mas de forma curiosa, Jung acena essa questão com um dado muito interessante, quando diz: “(...) as depressões são um estímulo para se percorrer novos caminhos, seguir o caminho interior. Entretanto muitas pessoas recusam-se a dar esse passo a frente. Elas ficam presas ao seu passado e procuram dar prosseguimento aos padrões de vida da primeira metade da vida” (cf. op.cit. in Grün, Anselm. A cura espiritual da depressão. p.112. Vozes). Como confessor, e no trabalho de aconselhamento, tenho percebido essa situação, principalmente entre casais, de modo particular, mas também em sacerdotes, religiosos e etc. Por quê? Ora, nessa faixa etária, a pessoa nota que não é mais jovem, mas também não é idosa. Os valores nesse momento começam a sofrer uma transformação e daí a crise existencial. Jung faz uma observação interessante: “(...) as pessoas mergulham na atividade para encobrir o seu vazio interno e, com a consciência leve esquiva-se do problema” (cf. ibidem). Então, ao conversar com essas pessoas, casais e outros, eles relatam com certo saudosismo os grandes feitos da juventude e como diz Jung, para esquecer o vazio no presente momento. Existem fatores que favorecem essa postura, como a aposentadoria, separações, a perda de alguém e não ter aprendido a repensar a vida com critérios mais sólidos e maduros, afinal, a vida tem um início, um meio e um declínio.
O VALOR DA FÉ DIANTE DA DEPRESSÃO
A angústia básica do ser humano não pode ser curada apenas com a psicologia e com a psicanálise. Ela precisa mergulhar bem mais na profundidade daquilo que se externaliza. O psicólogo austríaco Paul Watzlawick, diz: “(...) eu considero a fé uma reinterpretação da realidade”. E Jung completa ao afirmar que: “a verdadeira terapia para a pessoa de meia-idade é a religião, pois, convida a descobrir o significado oculto que se esconde por detrás de tudo ele faz, vê e é. A função da religião é levar-nos além dos nossos desejos e objetivos egoístas. Só podemos viver adequadamente se descobrimos a nossa riqueza interior”. O psicólogo Frederic Flach diz que: “a depressão é sempre uma chance de vida, ela nos presta um serviço, pois nos induz de forma natural à recuperação do tempo e reflexão sobre o nosso objetivo da vida”. A maior parte dos casais que procuram ajuda nessa faixa etária, tenho conseguido recuperá-los, mostrando com firmeza que é o momento de viver o casamento com realismo, solidificados numa espiritualidade profunda. O romantismo pode continuar, mas não é o principal e sim a solidez de um amor maduro, consciente com perspectiva para um futuro encontro com Deus. Pense e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
pearisilva@hotmail.com e www.catedraldepedra.com.br

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