Jornal de Canela

ANO XXV - EDIÇÃO Nº 1352
Hoje: 09/09/2010

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Seção: Guia de Pesca

Biólogo, Gustavo De Marchi

TODO BARCO DEVE TER UM NOME

Todo barco deve ter um nome. Acho que li em Barbosa Lessa que segundo os nativos de nossa terra as coisas teriam que ter um nome para existir. Recentemente, antes que chegasse meu caiaque, fiquei pensando em um nome. Que trouxesse sorte. Os marujos dizem que o nome já traz o destino de um barco. E nome não se troca, dá azar. Passaram uns dias e me ocorreu o nome para meu caiaque amarelo. Joker. Para dar mais sorte ainda, bolei um brasão também, uma coroa de coringa, com borlas e guizos. Logo, vi que para um pescador silencioso, o caiaque é o que são as assas para um pássaro, a própria liberdade: poder acessar o inacessível. A primeira remada, de batismo, só poderia ser na mais bela de todas as barragens serranas gaúchas, em um dia lindaço de sol e céu azul. Preparativos. Cinchar bem o colete, ensaiar, em local raso, a entrada e saída do caiaque, pela lateral, amarrar o remo ao caiaque, carregar as tralhas, testar a bateria do sonar e subir à bordo. Instantes de adaptação. Como se o meu corpo se transformasse, crescendo de 1,80m para 3,40m, mãos virassem remos, minha cabeça migrasse para as costas e me tornasse amarelo como um Simpson. Por fim um organismo único. Metamorfose adaptativa completada. Como diz a frase bons garotos vão ao céu, marujos vão à todos os lugares. Me fiz marujo então. Quem está à bordo deve ter uma patente. As primeiras remadas logo trazem uma ótima sensação, é a tal da liberdade. Uma brisa leve de ar gelado da manhã na cara e a água batendo na roda de proa. O ruído do remo entrando e saindo da água, as gotas pingando como pequenos cristais refletindo sol. E o som quase silencioso do mundo. E tudo mudando de lugar ao redor, rumo à próxima curva. E então, conforto, estabilidade e segurança. Tudo vira uma grande festa. Um “sea dog”, um lobo das barragens, e imprimo ritmo à remada. Remadas cadenciadas, navegando a 2,8 nós. Me autopromovi de marujo à mestre, “magister navis”, o patrão de embarcação da Roma antiga. Divisei outro casco amarelo, era o Érico ao longe. Remei até ele. O Barracuda irmão do Joker. Pinchava contra as margens, em uma manta de vegetação. Lugar esplêndido! Mas, nada de peixes para nós. Resolvemos seguir ao noroeste e contornar uma curva. Feito isso vimos o trairódromo ideal. Aproximação silenciosa. Lado à lado, lançamos nossas iscas. Optamos por anti-enrrosco para bater sobre a densa vegetação. A brisa havia parado. O silêncio absoluto fora rompido por um estouro na superfície sobre a isca do Érico. Teve início uma briga complicada para tirar o peixe que se escondera na vegetação. De fato, era uma traíra. Continuamos, e o ratinho que eu usava voou longe com o bote errado da traíra. E se seguiram muitas batidas, uma atrás da outra para ambos. Uma traíra enorme pulou sobre minha isca, saindo inteira para fora da água. O Érico embarcava outra dentuda. O mais recôndito dos pesqueiros. Um brinde ao sucesso da “caiacada”. Qual a pior coisa que pode acontecer nessa hora? Repentinamente, um vento começa a soprar rapidamente. Olhei para a popa e gelei. De traz dos morros verdes e pedregosos, como se sempre estivera ali, escondida, tal como uma fera esperando para dar um bote, uma tempestade salta, negra, carregada de fúria, em nossa direção. É sempre excitante ou aterrorizante ver uma tempestade se desdobrar no horizonte, depende de onde está o espectador. Em nosso caso, o horizonte era próximo, e a cena aterrorizante. O temporal se acercava com velocidade. Vieram as ondas com mais de palmo. Com movimentos enérgicos iniciamos as manobras de retorno, lutando contra as ondas sequenciais para escaparmos do brete das traíras, com tristeza por deixá-las em pleno combate. Raios começaram a estourar não muito distantes, como um último aviso. As varas apontadas para o céu nos suportes eram para-raios eficientes. Tínhamos muito pouco tempo. Traçamos a menor rota de fuga e alinhamos os caiaques para enfrentar as ondas de frente. Optamos por navegar próximo à margem, nas águas mais rasas. E veio um mundaréu de água e ventos e os raios se aproximavam. Remem. Remem. Obedecia à ordem gritada na mente. Remem. Cadência e força. A última curva do porto de partida. Uma corrida de 2 km. Remem. As árvores se aproximando. E triunfante pulei no porto, longe dos raios. Orgulhoso por acertar no nome do Joker, que encarou ventos e ondas com bravura e velocidade, mas, triste por deixar o embate com as traíras para o futuro próximo. Pesque e solte!
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