Tecnologia é bom demais. Encurta distâncias, agiliza informações, aproxima gente de todos os cantos do mundo; enfim, facilita enormemente a vida das pessoas. É bom, mas acaba com a privacidade e com a prerrogativa que temos de ficarmos na nossa de vez em quando, sem dar satisfação de nossos passos. Se alguém nos envia um e-mail, ficamos sem graça ao encontrar a tal pessoa insistindo numa “posição”. Pode acontecer de não termos nada a dizer sobre o assunto naquele (ou em qualquer outro) momento...
O celular, que tanto nos socorre em momentos de necessidade, pode ser o antídoto do que se entende por “vida privada”. Encontram-nos em qualquer lugar e hora e, não sei se é só por hábito ou por pura xeretice, mas em 99% das vezes, antes mesmo de saber como estamos, disparam a famigerada pergunta; “aonde é que tu tá?”. Imagina a situação: o cara está no banheiro, toca o celular e a pessoa atende. A acústica de “taquara rachada” é inconfundível e ainda assim querem saber “onde” a criatura está! Caramba! Não é possível que o lugar onde estejamos seja sempre mais importante do que o motivo da ligação. Mas o martírio não para por aí. Mal temos tempo de responder e já emendam: “Fazendo o que aí?”.
E quando ligam, mas por “n” motivos não podemos ou não queremos atender: é encrenca na certa! Na primeira oportunidade em que nos deparamos com o indivíduo, lá vem um “Pô, meu, qual é de não me atender e nem retornar?”. Uma coisa é certa: toda tentativa de explicação, por mais honesta que seja, vai soar como mentira! Mas, por que mesmo continuam bombardeando os outros com interrogatórios? Será que realmente não se dão conta da invasão, da indelicadeza? Provavelmente não. E os celulares que nos mostram ao vivo? É o fim da liberdade! Câmeras podem render muita dor de cabeça. Se cair na “rede”, já era! E nem adianta mudar de endereço; a vítima acaba sempre sendo encontrada.
O ser humano é engraçado. Nada do que foi dito é novidade. Todo mundo sabe que quando faz uma ligação – exceto quando programa para não ser identificado – o destinatário vai saber a procedência. É patético soterrar a “vítima” com questionamentos infindáveis. Perde-se o foco para evidenciar o que se julga uma falha no comportamento alheio... Às vezes dá saudade do tempo em que não existia celular nem internet, não pelo (impensável) retrocesso tecnológico, mas pelo resguardo da intimidade.
O que chateia, mas chateia mesmo é que nos damos conta de que a tecnologia praticamente institucionalizou a falta de educação. A ética e a elegância então, devem ter ficado no passado! Tem gente que não se flagra. Se ligou, ligou e o outro não retornou, dá um tempo! A menos que seja uma emergência, melhor esperar e se demorar muito, esquecer. Na correria, estamos arriscados a, mesmo sem querer receber uma determinada ligação, apertarmos inadvertidamente a tecla “atender”. Atônitos e sem saber o que dizer podemos nos pegar numa autêntica produção sonora, imitando ruídos de vento, de máquinas e outros tantos que nossa criatividade permitir, prejudicando propositalmente a comunicação. Sem saber, nestas horas, damos vazão – de um jeito pouco louvável, é verdade! - a uma veia teatral que nem sabíamos possuir... Tudo para tentar defender nosso direito à privacidade!
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